Quando se fala em cirurgia minimamente invasiva, é natural pensar imediatamente em cortes menores e em uma recuperação mais rápida. Muitos de nós conhecemos alguém que já foi submetido a uma cirurgia minimamente invasiva, principalmente na área abdominal. A famosa “cirurgia da vesícula por vídeo” talvez seja o exemplo mais conhecido.
De fato, uma das principais premissas da cirurgia minimamente invasiva é reduzir o trauma causado pelo acesso cirúrgico. Em outras palavras, quanto menor o trauma provocado pelo procedimento, menor tende a ser o impacto da cirurgia sobre o organismo.
Mas, quando falamos em cirurgia cardíaca, é importante entender que o conceito de cirurgia minimamente invasiva vai muito além do tamanho da cicatriz.
O que é cirurgia cardíaca minimamente invasiva?
Tradicionalmente, a maior parte das cirurgias cardíacas são realizadas por meio da esternotomia mediana, uma incisão no centro do tórax que permite a abertura do esterno – o osso localizado na parte anterior do peito – para que o cirurgião tenha acesso ao coração.
Na cirurgia cardíaca minimamente invasiva, o objetivo é realizar o mesmo procedimento por meio de acessos menores e diferentes da abertura completa do esterno.
Existem diferentes técnicas e acessos minimamente invasivos. Em determinadas cirurgias da válvula aórtica, por exemplo, pode-se utilizar uma pequena incisão no centro do tórax, chamada ministernotomia, ou uma pequena incisão entre as costelas, conhecida como minitoracotomia.
Apesar das diferenças entre as técnicas, o princípio é o mesmo: oferecer o tratamento necessário utilizando o menor acesso possível, sem comprometer a segurança e a qualidade da cirurgia.
É importante, entretanto, esclarecer uma ideia bastante comum: cirurgia minimamente invasiva não significa que o coração será operado “sem abrir o tórax”. O tórax ainda precisa ser acessado, mas por uma abordagem cuidadosamente planejada e menos agressiva do que a cirurgia convencional.
Uma cicatriz menor é realmente melhor?
Em muitos casos, sim. Reduzir o tamanho e o trauma do acesso cirúrgico pode contribuir para menor agressão aos tecidos, menos dor, recuperação funcional mais rápida e uma cicatriz menor.
Mas existe um ponto fundamental: uma incisão menor, por si só, não torna uma cirurgia melhor.
Uma cirurgia minimamente invasiva precisa oferecer o mesmo objetivo da cirurgia convencional: tratar adequadamente a doença e preservar a segurança do paciente.
Por isso, não devemos avaliar uma cirurgia apenas pelo tamanho da cicatriz. O resultado depende de todo o processo: da seleção adequada do paciente, do planejamento pré-operatório, da técnica utilizada, da experiência do cirurgião, da estrutura disponível e da integração de toda a equipe.
Em outras palavras, a cirurgia minimamente invasiva não deve ser vista simplesmente como uma cirurgia convencional realizada por um corte menor. Ela exige uma estratégia própria.
O planejamento começa antes da cirurgia
Na cirurgia cardíaca minimamente invasiva, o planejamento pré-operatório é uma etapa fundamental.
Cada pessoa possui uma anatomia diferente. A posição do coração dentro do tórax, a localização da aorta, a relação entre o coração e o esterno, o tamanho e a configuração do tórax e diversas outras características anatômicas podem influenciar diretamente a escolha da melhor abordagem.
Por esse motivo, exames de imagem, especialmente a tomografia computadorizada em situações selecionadas, podem fornecer informações importantes para o planejamento.
A partir dessas imagens, é possível avaliar a anatomia de cada paciente e determinar qual acesso oferece a melhor exposição cirúrgica, quais estruturas precisam ser consideradas e quais dificuldades podem ser antecipadas.
Esse planejamento permite que a cirurgia seja mais previsível e reduz a possibilidade de situações inesperadas durante o procedimento.
A cirurgia minimamente invasiva começa, portanto, muito antes da primeira incisão.
E durante a cirurgia?
Uma cirurgia cardíaca minimamente invasiva exige uma equipe preparada para trabalhar em um campo cirúrgico diferente daquele encontrado na cirurgia convencional.
Além da técnica do cirurgião, anestesistas, perfusionistas, enfermeiros e demais profissionais precisam estar familiarizados com todas as etapas do procedimento.
Em muitas cirurgias cardíacas, é necessário utilizar a circulação extracorpórea, uma tecnologia que permite manter a circulação do sangue e a oxigenação do organismo enquanto o coração é temporariamente parado para que o procedimento possa ser realizado.
Em uma abordagem minimamente invasiva, o funcionamento adequado da circulação extracorpórea, a monitorização anestésica, a exposição cirúrgica e a comunicação entre os membros da equipe tornam-se ainda mais importantes.
Por isso, a experiência não está apenas nas mãos do cirurgião. Uma cirurgia minimamente invasiva bem-sucedida é resultado do trabalho coordenado de toda uma equipe.
Quais são os benefícios?
Os benefícios podem variar de acordo com o tipo de cirurgia, a técnica utilizada e as características de cada paciente.
Entre os possíveis benefícios das abordagens minimamente invasivas estão:
- menor trauma relacionado ao acesso cirúrgico;
- menor agressão ao esterno, em algumas técnicas;
- retorno mais precoce às atividades habituais em determinados casos;
- menor impacto estético da cicatriz.
É importante, porém, não transformar esses benefícios em promessas.
A cirurgia cardíaca é um procedimento de grande complexidade, independentemente do tamanho da incisão. O tempo de recuperação varia de pessoa para pessoa e depende da doença tratada, das condições clínicas, da técnica empregada e da evolução após a cirurgia.
O objetivo principal nunca deve ser simplesmente produzir uma cicatriz menor. O objetivo é tratar a doença com segurança e, quando possível, reduzir o trauma necessário para alcançar esse resultado.
Quem pode fazer uma cirurgia cardíaca minimamente invasiva?
Essa é uma das perguntas mais importantes – e também uma das que não possui uma resposta única.
A cirurgia minimamente invasiva não é indicada da mesma maneira para todos os pacientes.
A possibilidade de utilizar uma determinada técnica depende de diversos fatores, incluindo:
- o tipo de doença cardíaca;
- a anatomia do coração e da aorta;
- características do tórax;
- cirurgias cardíacas anteriores;
- presença de outras doenças;
- condições clínicas do paciente;
- complexidade do procedimento;
- experiência da equipe com aquela técnica.
Em alguns pacientes, a anatomia é particularmente favorável a uma abordagem minimamente invasiva. Em outros, a cirurgia convencional pode proporcionar uma exposição mais adequada e, portanto, representar a opção mais segura.
Por isso, a indicação deve ser individualizada.
Não existe uma técnica que seja necessariamente melhor para todos os pacientes. Existe, sim, a técnica mais adequada para cada situação.
E se for necessário mudar a estratégia durante a cirurgia?
Uma das preocupações de muitos pacientes é saber o que acontece caso o cirurgião encontre uma dificuldade durante uma cirurgia minimamente invasiva.
A resposta é simples: a segurança do paciente sempre vem em primeiro lugar.
Se durante o procedimento houver uma situação que impeça a realização segura da cirurgia pela abordagem inicialmente planejada, pode ser necessário ampliar o acesso ou converter para uma abordagem convencional.
Isso não deve ser interpretado como uma falha da cirurgia minimamente invasiva. Pelo contrário: a possibilidade de adaptar a estratégia diante de uma situação inesperada faz parte de uma cirurgia segura.
O planejamento pré-operatório tem justamente o objetivo de reduzir essa possibilidade, mas nenhuma cirurgia está completamente livre de imprevistos.
Por que nem todo hospital oferece cirurgia minimamente invasiva?
A cirurgia cardíaca minimamente invasiva exige mais do que instrumentos específicos.
É necessário treinamento da equipe, experiência com a técnica, equipamentos adequados, protocolos de segurança e uma estrutura hospitalar capaz de oferecer suporte a procedimentos de alta complexidade.
Por isso, a realização de uma cirurgia por uma incisão menor não deve ser considerada um objetivo isolado.
Mais importante do que oferecer uma determinada técnica é ter estrutura e experiência suficientes para utilizá-la de maneira segura e adequada.
Cirurgia minimamente invasiva ou cirurgia convencional: qual é melhor?
Essa comparação precisa ser feita com cuidado.
A cirurgia minimamente invasiva não substitui a cirurgia convencional em todas as situações. Da mesma forma, a cirurgia convencional não deve ser considerada inferior simplesmente por utilizar uma incisão maior.
As duas abordagens têm indicações, vantagens e limitações.
A pergunta mais adequada não é:
“Qual cirurgia é melhor?”
Mas sim:
“Qual é a melhor cirurgia para este paciente?”
Essa decisão deve levar em consideração a doença, a anatomia, as condições clínicas, os riscos e os objetivos do tratamento.
Quando o paciente apresenta características favoráveis e existe uma equipe experiente na técnica, a cirurgia minimamente invasiva pode proporcionar os benefícios de um acesso menos traumático mantendo os mesmos princípios de segurança e eficácia da cirurgia convencional.
Uma nova forma de pensar a cirurgia cardíaca
A evolução da cirurgia cardíaca não está apenas relacionada ao desenvolvimento de novas tecnologias. Ela também está relacionada à maneira como utilizamos essas tecnologias para oferecer tratamentos cada vez mais individualizados.
A cirurgia minimamente invasiva representa justamente essa mudança de conceito.
Não se trata apenas de fazer uma incisão menor.
Trata-se de planejar melhor, selecionar adequadamente o paciente, utilizar a tecnologia disponível, trabalhar em equipe e reduzir o trauma sem comprometer o resultado do tratamento.
Em cirurgia cardíaca, cada detalhe importa.
Por isso, quando alguém pergunta se é possível realizar uma cirurgia cardíaca por uma abordagem minimamente invasiva, a resposta deve começar com uma avaliação individualizada.
A Palavra do Especialista:
“Nem todo paciente é candidato. Mas, para o paciente certo, com a técnica adequada e uma equipe preparada, a cirurgia minimamente invasiva pode representar uma importante evolução no tratamento das doenças cardíacas”