Essa é uma das decisões mais importantes de todo o tratamento e, naturalmente, uma das que mais geram dúvidas também. Quando alguma das valvas cardíacas não pode ser preservada, é necessário substituí-la por uma prótese valvar, sendo elas biológicas ou mecânicas. Mais do que escolher entre uma e outra, o objetivo é encontrar aquela que melhor se adapta ao momento de vida de cada paciente, e isso é sempre uma escolha individualizada.
As próteses biológicas são produzidas a partir de tecidos orgânicos, de origem animal, tratados de maneira específica para serem compatíveis com o corpo humano. Possuem o funcionamento semelhante ao da válvula natural e oferecem a vantagem de não necessitarem de anticoagulação contínua. No entanto, existe um ponto que merece atenção: elas sofrem o desgaste ao longo do tempo, principalmente em pacientes mais jovens, onde o metabolismo do cálcio é mais ativo, o que pode significar a necessidade de uma nova intervenção no futuro. Em geral são mais indicadas em pacientes acima de 60 anos, mulheres com desejo de gestação e pacientes com contraindicação de uso de anticoagulantes.
As próteses mecânicas são produzidas com materiais de alta tecnologia, como o carbono pirolítico. Apresenta alta resistência e sua durabilidade pode ser vitalícia. No entanto, alguns pontos merecem atenção: é necessária a anticoagulação contínua com seguimento mensal com exames de sangue e produzem um som de clique metálico, que pode ser audível pelo paciente e pelos familiares. Em geral são mais recomendadas para pacientes jovens, que possuem disciplina para utilizar a medicação continuamente e fazer o controle adequado, com o intuito de evitar múltiplas cirurgias.
Valve-in-Valve (ViV): a “segunda chance” por cateter
A técnica Valve-in-Valve representa um dos grandes avanços da cardiologia moderna. Ela permite tratar uma prótese biológica que se desgastou ao longo do tempo sem a necessidade de uma nova cirurgia aberta. O procedimento é realizado por cateter, onde uma nova prótese é implantada dentro da prótese antiga, restaurando o funcionamento do coração de forma menos invasiva. No entanto, essa não é uma opção para todos. Ela depende de variáveis anatômicas que são avaliadas através de exames de imagem. O que pode inviabilizar o procedimento:
- Infecções (Endocardite): se houver infecção ativa na prótese valvar.
- Tamanho Reduzido: em uma prótese pequena, pode não haver espaço para o valve-in-valve.
- Instabilidade: se a prótese antiga estiver “solta” ou desprendida do tecido do coração.
Fatores que influenciam na decisão
Para ajudar na sua reflexão antes da nossa consulta, considere os seguintes pontos:
- Idade: Quanto mais jovem o paciente, mais rápido o corpo desgasta a prótese biológica. Por isso, em pacientes abaixo dos 50 anos, a prótese mecânica costuma ser a primeira opção.
- Estilo de Vida: Você pratica esportes de impacto ou atividades com alto risco de sangramento? O anticoagulante exige cuidados com acidentes e traumas.
- Desejo de Gravidez: O uso de anticoagulantes é complexo durante a gestação, tornando a prótese biológica preferível para mulheres que planejam engravidar.
- Disciplina: Você se sente confortável em tomar um comprimido todos os dias no mesmo horário e realizar exames de sangue mensais?
- Possibilidade do valve-in-valve: ainda que existam questões anatômicas e técnicas a serem consideradas, o valve-in-valve só é possível com próteses biológicas.
A palavra do especialista:
“Mais do que escolher uma prótese, estamos escolhendo um caminho. Essa decisão é construída em conjunto, com base em informação clara, análise cuidadosa e alinhamento com o estilo de vida de cada paciente. Não existe uma prótese melhor de forma absoluta, mas sim a mais adequada para o seu momento de vida. Na consulta, analisaremos seus exames e sua rotina para decidirmos, juntos, qual caminho trará mais segurança e liberdade para o seu futuro.”